Conhecendo Cuiabá, o cabo-verdiano, pesquisador em Boston, assustou-se diante do barulho: o que é isto?! Em diálogo, sustentou: um ambiente sonoro equilibrado, menos poluído por sons é fundamental para a qualidade de vida.
Difícil justificar para o visitante tamanha agressão sonora em um apertado espaço citadino plantado na imensidão do cerrado. Transformou-se o garimpo de Sutil, cresceu, virou cidade com ruas e ruelas tortuosas e íngremes, entulhadas de latas e de máquinas.
O seu trânsito é ladrão do direito do pedestre, a sua máquina barulhenta agride o ser humano e o próprio habitat.
O estudioso sabe que o órgão auditivo é o primeiro a ficar pronto, pouco depois dos 4 meses de gestação. É o nosso primeiro contato com o mundo. Como comportam mãe e feto?
Para quem valoriza a paisagem sonora, as memórias musicais têm muito valor. Ou a memória auditiva, como possuo sons da infância em Cuiabá, com forte conteúdo emocional: o barulho das águas do rio Cuiabá com águas límpidas, a passarada com cantos diversificados, as melífluas melodias do violino e do piano, órgão, a suavidade da valsa no rádio de válvulas, a cantiga de roda, o chiar do carro-de-boi em Coxipó da Ponte, o trotear do cavalo ou o ciziar da cigarra, o repicar do sino ou o espocar do foguete, o tique-taque do relógio ou o grito do peixeiro, o latido, o berro, o miado, o cricri, o galicanto ou o cacarejo.
Tudo o mais não era a conspiração sonora de hoje, mas sonoridade pacificadora. Expandir-se sem planejamento foi o grande mal.
Despreocupação com o plano diretor, aliada à pobreza de recursos financeiros, e ainda à voracidade dos empreendimentos imobiliários mal controlados.
Habitamos uma cidade desumana, no perímetro central e nos bairros reinam impunes a estridência sem limite da sirene ou o barulho perturbante da motocicleta sem silenciador. A fiscalização obrigatória e a penalidade não acontecem.
Os detentores do Poder buscam desconhecer o problema. Governo do Estado e Secretarias, Prefeitura Municipal, e vereadores, distanciam-se da responsabilidade.
Os dirigentes em sua maioria alojam-se em condomínios horizontais aprazíveis distantes do centro urbano, esquecendo-se da cidade tradicional, onde estão os edifícios residenciais.
Pobre geração que não conheceu os rios e riachos cuiabanos de água pura, nem ouviu o borbulhar das cachoeiras, nem pisou a relva serenada. Geração, embrutecida pela tecnologia mal-usada, atormenta e torna-se vítima também; pois o seu espírito não foi lapidado pala natureza acolhedora.
A educação que lhe é oferecida é desprogramada para a vida em sociedade. Não se lhe entalhou o espírito da cidadania. Fácil falar em educação, todavia depende dos atores da educação.
O “trruumm” denuncia a incivilidade e a selvageria do asfalto. Machuca ouvidos e instala doenças.
No dia a dia, o excesso de sons prejudiciais afasta-nos da compreensão silenciosa do nosso tempo pessoal.
O desafio sonoro está na soleira das portas das autoridades que cruzam irresponsavelmente os braços.
BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e foi reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).