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As fadas do TSE

Por conta da Lei das Eleições, aprovada na minirreforma eleitoral de 2015, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem a obrigação de promover propagandas que incentivem a participação das mulheres na política. Isso deve ocorrer entre 1º de abril e 30 de julho dos anos em que houver eleições.

Nesse contexto, em entrevista à Agência Brasil (01/04/2016), a ministra Luciana Lóssio, do TSE, afirmou que “…temos menos de 10% de parlamentares mulheres… Em um ranking mundial da democracia, com 188 países, o Brasil ocupa a 154ª posição. E quando pensamos que o Brasil é a 7ª economia mundial, não faz sentido essa colocação…”

Também acho que poderíamos ter mais mulheres na vida política. Nada contra. Mas tudo contra os argumentos expostos na segunda parte da propaganda do TSE, que vem sendo veiculada desde 1º de abril.

Na primeira parte da propaganda, quatro enunciados incontestáveis são apresentados:

1º) a visão preconceituosa de que a “Mulher só sabe pilotar fogão” – com a retirada das palavras “só” e “fogão” – é transformada em “Mulher sabe pilotar” avião, no caso. A cena sugere isso;

2º) ao entrar uma árbitra em um lotado estádio de futebol, uma voz masculina indaga: “Desde quando a torcida respeita?”. Pelo mesmo recurso, isso é transformado em “A torcida respeita”;

3º) em uma construção civil, um homem sentencia: “Mulher na obra nunca dá certo”. Na sequência, o “nunca” cai da sentença, ficando apenas “Mulher na obra dá certo”;

4) em um escritório, uma mulher (e negra) entra para coordenar uma reunião. A isso é dito: “Nenhuma mulher chegou à diretoria”. A parte inicial do enunciado cai, sobrando apenas “Chegou à diretoria”.

E chegou mesmo. Muitas de forma exemplar. Outras, como Graça Foster na Petrobras, nem tanto.

A partir daí, inicia-se a segunda parte da propaganda do TSE. Simulando uma candidata, uma mulher, em um palanque – sempre aplaudida pelo público – diz: “Está na hora de derrubar mais um rótulo: a desigualdade na política. Nós já tivemos várias conquistas, mas precisamos ir em frente. Faça você parte das decisões de seu bairro, de sua comunidade, de seu município. Quanto mais participação feminina na política, mais democracia”.

Será mesmo assim?

Que as mulheres, assim como os homens, podem ser excelentes profissionais em todos os setores possíveis do trabalho e da política, não duvido. Agora, tenho dúvidas sobre essa afirmação final da propaganda do TSE.

Aliás, as poucas experiências que temos de mulheres no poder, pelo menos no Brasil, com raras exceções, não credenciam o TSE a fazer a afirmação, totalmente baseada em um dos clichês do politicamente correto.

A meu ver, a vivência democrática não se consolida pela questão/oposição de gênero. Se fosse assim, a atual presidente da República seria a criatura mais democrática do Brasil, quando sabemos não ser.

Sua simples presença na presidência também não nos deu mais democracia. A quantidade – no caso, de mulheres na política – não qualifica nenhuma democracia.

Repito o que disse no artigo anterior: na última greve das universidades federais, a Sra. Rousseff – que já por meio de um autoritarismo linguístico exige ser chamada de “presidenta” – não permitiu sequer que o Ministério da Educação recebesse os docentes.

Portanto, nossa democracia não será melhor simplesmente por termos mais mulheres no poder, mas será mais democrática se tivermos mais mulheres democráticas no poder. E essa condição jamais tem o pertencimento exclusivo deste ou daquele gênero.

Acreditar nisso é, no mínimo, acreditar em encantamentos de fadas.

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pela USP e professor de Literatura da UFMT.

rbventur26@yahoo.com.br


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