Reprodução

Operador de propina na Seduc se livra de condenação

Gazeta Digital

Um dos principais delatores dos esquemas de pagamento de propina descobertos pela Operação Rêmora, Giovani Belatto Guizardi, vai receber R$ 1 milhão do governo do Estado de Mato Grosso, após embolsar mais de R$ 12 milhões, mesmo quando estava preso.

A despeito de ter sido um dos líderes da quadrilha que acelerava pagamentos de obras da Secretaria de Estado de Educação (Seduc-MT) a troco de propina, Guizardi não possui nenhuma condenação e, ainda por cima, vai receber dinheiro do governo.

 

A informação faz parte de mais uma reportagem da série ‘O Crime Compensa?’, que desta vez conta um pouco da história por trás da delação que sacudiu o sistema político em Mato Grosso. Guizardi foi responsável por denunciar, por exemplo, que a maracutaia na Seduc servia para que o empresário Alan Malouf pudesse reaver R$ 10 milhões investidos na campanha de Pedro Taques (PSDB) a título de caixa 2.

 

‘Auxílio reclusão’

O pagamento de R$ 1 milhão a Guizardi, descoberto pela reportagem, será feito através de um empenho em nome da Dínamo Construtora Ltda., empresa que pertence ao delator e que participou com protagonismo dos esquemas revelados em 2015 pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). Empenho é um termo da contabilidade pública que define a criação de uma obrigação do estado para com credores. Com isso, o governo admitiu uma dívida de determinado valor com a construtora do delator.

 

Esta não é a primeira vez que Guizardi recebe benefícios do Estado. Antes ele recebeu dinheiro mesmo estando detido. Para quem se incomoda com o auxílio-reclusão pago para reeducandos mais pobres, cujas famílias ficam em situação de vulnerabilidade, o valor que Guizardi recebeu enquanto estava na cadeia chama a atenção por ser milionário.

 

Entre os dias 3 de maio de 2016 e 30 de dezembro do mesmo ano, o empresário – que ainda não havia delatado – embolsou exatos R$ 12,5 milhões. Os valores foram pagos nos dias 16 de julho (R$ 8,1 milhões), 8 de novembro (R$ 2,9 milhões) e 28 de dezembro (R$ 1,4 milhão), dois dias antes dele sair da prisão.

 

Em maio de 2016, logo após ser preso, um dos contratos da Dínamo Construtora com a Sinfra foi prorrogado por mais um ano. O caso ganhou as manchetes dos jornais, mas pouco foi feito. Na época, a construtora trabalhava para concluir a pavimentação e duplicação da MT-040 em Santo Antônio de Leverger.

 

Em 2018, a empresa de Guizardi não recebeu nenhum valor. Mas, em 2017, um ano depois de ter sido preso e logo após firmar delação premiada, a Sinfra liquidou, em nome da empresa do empreiteiro, um valor de R$ 4,5 milhões no final de abril.

 

O caso é semelhante ao que ocorreu com as empresas do também delator Ricardo Sguarezi, que mesmo envolto em corrupção, continua recebendo dinheiro público por conta de contratos antigos com as secretarias de governo, conforme demonstrou matéria anterior do jornal A Gazeta. Alguns destes contratos são do ano de 2010. Se for somar todo o valor empenhado e ainda não pago pelo governo estadual, a Dínamo ainda tem a receber cerca de R$ 6 milhões.

 

Filho de peixe

Além da construção civil, uma das atividades da família Guizardi é a piscicultura. O pai de Giovani, Miguel Guizardi Júnior, obteve licenças para a criação de peixes. Uma delas foi obtida em 2017, para uma área às margens da rodovia de Chapada dos Guimarães, no trevo de entrada para o Manso. Coincidência ou não, o nome da operação que prendeu seu filho, ‘Rêmora’, refere-se a um peixe. O animalzinho, que é marítimo, fixa-se em tubarões para retirar pequenos alimentos de seus dentes – daí a associação com o esquema, em que pequenos empreiteiros se aproximaram de ‘tubarões’ da política para angariar recursos.

 

Apesar de ‘pequeno’ no mundo na política, Guizardi ficou conhecido por sua truculência. Segundo relato de outro delator, o ex-secretário de Educação Permínio Pinto, o esquema na pasta só acabou porque o empresário era voraz ao cobrar propina e ajudar seu amigo, Alan Malouf, a arrecadar recursos. Em outro depoimento, o empresário Ricardo Sguarezi reafirmou que não gostava de negociar com Guizardi por conta de seu estilo mais ‘contundente’.

 

Miguel Guizardi também foi citado na Operação Rêmora. O engenheiro Wander dos Reis chegou a dizer, em 2017, que o empreiteiro tinha interesse em fraudar uma licitação de R$ 33 milhões para o programa ‘Escola Legal’ do governo Pedro Taques. Em sua delação, Giovani Guizardi confirmou que ele e Alan Malouf esperavam arrecadar R$ 6 milhões com as fraudes neste processo. Por sorte, a licitação foi suspensa, justamente por conta das suspeitas de direcionamento.

 

Silval delatou
A delação do ex-governador, Silval Barbosa, também cita o nome dos Guizardi. Guizardi pai e Guizardi filho teriam pago, segundo Silval, R$ 600 mil, levados em uma mochila, para que a construtora dos dois participasse do programa ‘MT Integrado’.

 

Por conta desta citação, a construtora da família foi incluída em um rol de empreiteiras investigadas pela Controladoria Geral do Estado (CGE), que correm o risco de perder contratos com o governo. A investigação foi aberta em janeiro deste ano e apura a responsabilização de 13 empresas, além da própria Dínamo Construtora.

 

Outro lado

Procurada, a Sinfra afirma que a construtora Dínamo tem um contrato vigente com a secretaria (38/2010) e que a obra está com 99% de execução, na MT-040, região de Santo Antônio do Leverger. Sobre o empenho de R$ 1 milhão, contido no Sistema Integrado de Planejamento, Contabilidade e Finanças de Mato Grosso (Fiplan), refere-se ao empenho global do contrato devido sua vigência. ‘Qualquer pagamento à construtora só será realizado após aprovação de medição de obra. Até o momento, não há medições em análise’, diz a Sinfra.

 

Já o advogado de defesa do delator também foi procurado. A reportagem fez uma série de perguntas sobre o acordo de delação premiada e sobre a relação de Guizardi e seu pai nos esquemas revelados pelo ex-governador Silval Barbosa. Até o fechamento desta edição nenhuma resposta foi enviada.

 

Rêmora em resumo

  • Em maio de 2016, o Gaeco deflagra a operação Rêmora, para combater fraudes em licitações e contratos administrativos de construções e reformas de escolas na Seduc

  • A denúncia anônima informa que as irregularidades teriam começado na gestão anterior e que, conforme levantamento Fiplan, entre os anos 2006 a 2014 quase R$ 300 milhões foram pagos a um grupo de empresas construtoras que operava junto à Seduc

  • Estas empresas, desde outubro de 2015, estariam se organizando em cartel, com auxílio de funcionários públicos da Seduc que detinham informações privilegiadas sobre as licitações, para fraudar 23 novas obras de reforma e construção de escolas públicas que totalizariam R$ 56 milhões. Incluindo ‘Escola Legal‘, tomadas de preços e concorrências públicas.


O que achou desta matéria? Dê sua nota!:

0 votes, 0 avg. rating

Compartilhar:

Escreva um comentário