Primeiras impressões

Estamos chegando aos seis primeiros meses do governo Mauro Mendes. Mais três e uma mulher gera uma nova vida. O que o governo pariu até aqui? É hora das primeiras avaliações, ainda que parciais. Por uma questão de justiça, devemos levar em consideração algumas variantes das quais a mais relevante de todas é a crise financeira que solapa os Estados a partir do descontrole orçamentário federal. A retenção de repasses obrigatórios paralisa a administração estadual, refém da boa vontade da gestão centralizadora da União. Convém não esquecer, ainda no mesmo quesito, que o Estado de Mato Grosso, além de saqueado na gestão Silval Barbosa, prosseguiu trôpego e desequilibrado na gestão Pedro Taques, este último um homem de pernas muito curtas para o passo que queria dar. Não foi por coincidência que os governantes anteriores colheram, ao final de cada gestão, o que plantaram durante os anos que arrotaram toda a arrogância que acomete administradores quando não entendem que o poder passa rápido.

O governador Mauro Mendes diminuiu as expectativas durante a campanha. Isso foi muito positivo. Ao assumir, cortou alguns gastos e deixou clara a impossibilidade de conceder recomposições salariais e manter planos de progressão do funcionalismo, falha imperdoável na administração anterior. Ainda que mantenha o mesmo Secretário de Fazenda (de um governo por ele mesmo criticado) e tenha usado do expediente da calamidade financeira – uma manobra muito mais populista do que prática – o Estado de Mato Grosso batalha pela renegociação da dívida dolarizada que disparou, nos últimos anos. Não queiram que engulamos a “vantagem” de

uma eventual renegociação, uma vez que a dívida se estenderá e crescerá substancialmente a longo prazo. O que se objetiva é a redução da parcela, possibilitando fôlego mensal para equacionar pagamentos em atraso, herança dos governos anteriores. Como empresário, Mauro Mendes entende de vicissitudes. É natural que ponha um freio de breque nas contas públicas, suspendendo o pagamento de emendas parlamentares e de outros gastos laterais que o Estado de Mato Grosso não consegue fazer frente. Nós já estamos acostumados ao discurso de austeridade no começo da gestão, inclusive por aqueles que, depois da gestão, acabaram sendo presos. O que me preocupa é outra questão.

 

Considerando que o governo anterior ilhou-se numa bolha de comissionados que aplaudiam as chalaças do chefe na mídia, sem qualquer dúvida, o principal desafio de Mauro Mendes é manter-se aberto, dialógico e, sobretudo, humilde. Nesse sentido, foi indesculpável a falta do Governador no tricentenário da capital onde mora, governa, cria os filhos e mantém atividades comerciais. Não me interessa as questiúnculas políticas que o afastam do prefeito-paletó porque, em última análise, é o prefeito-paletó quem está no comando do tricentenário e deve ser tratado com respeito institucional que a representação pública demanda. Quem enfiou na cabeça de Mauro Mendes que a proximidade com Emanuel Pinheiro o “contaminaria” é um péssimo conselheiro e deve ser demitido porque, independentemente do que Pinheiro fez ou deixou de fazer, é Cuiabá quem perde com a falta de atenção do ex-prefeito e atual Governador.

 

Os amigos do fim de semana, do churrasco e do show não o salvarão das críticas à gestão, mas certamente o afastarão das sugestões que outras pessoas poderiam se dispor a oferecer gratuitamente. A formação de um núcleo duro que blinda o Governador de um diálogo mais imediato tornou-se comum, desde o segundo mandato de Dante de Oliveira, cercado por meia dúzia de amigos de viagens e de caminhadas, quase todos ungidos com uma Secretaria de Estado. Depois, Maggi prosseguiu com os churrascos entre compadres, Silval montou a quadrilha e Taques afastou do governo justamente os mais independentes, isto é, quem não o corrompia com o elogio fácil. O resultado foi que os mais chegados, os cortesãos a soldo, foram presos por suspeitas de corrupção. A fórmula para o fracasso é segura: poder demais para o círculo áulico desagua em alheamento do governante e na corrupção sistêmica.

 

Não se diga que os poderes não ajudam. A Assembleia nunca fez oposição a governo algum, o TCE não está glosando a administração, o Judiciário e o Ministério Público, como sempre, são muito compreensivos. Até a oposição – sempre minoritária e populista – torce por um bom governo, não impondo nenhuma condicionante impossível. A despeito da falta de recursos, da frustração com a arrecadação, dos repasses federais minguados, o que Mauro Mendes está fazendo em favor da transparência na administração? E da motivação da própria equipe? E quanto à desburocratização da máquina? Há uma agenda administrativa na prevenção da corrupção? Qual o esforço pessoal que faz o Governador na interação com o seu próprio povo? Mistura-se a gente comum ou permanece isolado no raffiné particular? O certo é que o isolamento, seja pessoal ou administrativo, resulta em desastre. Nós todos já sabemos como essa história acaba. Só não ouso escrever porque estaria plagiando Gabriel Garcia Márquez, autor da Crônica de uma Morte Anunciada. Por enquanto, é isso.

 

EDUARDO MAHON é advogado e escritor.


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