"> Violência mata jovens trans e envelhecer é exceção no Brasil – CanalMT

Violência mata jovens trans e envelhecer é exceção no Brasil

Em 2025, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil. Apesar da queda de 34% em relação a 2024, os dados nacionais divulgados esta semana continuam revelando uma realidade alarmante: a violência letal atinge, de forma desproporcional, pessoas trans jovens, impedindo que grande parte dessa população chegue à velhice.

A análise etária mostra que mais da metade das vítimas tinha entre 18 e 29 anos, além do registro de um assassinato de uma adolescente de 16 anos. À medida que a idade avança, os números despencam. Não houve nenhum registro de vítimas acima de 60 anos em 2025, um dado que não indica segurança, mas sim a dificuldade histórica de pessoas trans alcançarem a terceira idade no Brasil, onde a expectativa média de vida dessa população gira em torno de 35 anos.

Para a cientista social, artista e travesti Lupita Amorim, o envelhecimento trans ainda é algo raro e pouco visível. Ela destaca que poucas pessoas trans convivem ou sequer conhecem referências mais velhas dentro da própria comunidade. “O envelhecimento enquanto pessoa trans ainda é algo raro. Poucas pessoas trans conhecem pessoas trans velhas, e poucas pessoas da nossa idade nos conhecem”, afirma.

Divulgação

Lupita Amorim

Lupita cita como exemplo Janelúcia Miranda, mulher trans com mais de 60 anos, moradora de Cuiabá, que se tornou referência pessoal e afetiva. “Ela é uma sobrevivente. Faz aula de dança, vai a eventos, está sempre ativa, sonha, ri. Eu gosto muito de estar perto dela porque ela conseguiu envelhecer. Eu quero ver mais velhas”, relata.

Segundo ela, sobreviver até a velhice, sendo uma pessoa trans, ainda é um ato de resistência. “Como diz a Tiana Marciel, envelhecer é uma vingança”, afirma, ao mencionar a mulher trans mais velha do Brasil como símbolo de enfrentamento à violência estrutural.

Os principais obstáculos para esse envelhecimento, segundo Lupita, começam cedo e se acumulam ao longo da vida: falta de acesso à educação, exclusão do mercado de trabalho, marginalização e violências cotidianas. “Sem educação e trabalho, a gente acaba empurrada para contextos de maior vulnerabilidade, o que encurta nossas vidas”, explica.

Ela ressalta que envelhecer não é apenas sobreviver fisicamente, mas ter qualidade de vida, autoestima e segurança. “A gente precisa de autoconfiança, defesa pessoal, força para lidar com os olhares, perseguições na rua. Manter nossa beleza, nosso cuidado, porque isso também é sobrevivência”, diz.

Para Lupita, no entanto, a responsabilidade não pode recair apenas sobre o indivíduo. Ela defende políticas públicas estruturadas e permanentes. “Enquanto cidade, enquanto país, a gente precisa de um projeto sério, envolvendo todos os poderes, para garantir que pessoas trans consigam envelhecer”, conclui.

Em Mato Grosso, 3 dos 80 assassinatos registrados em 2025 ocorreram no estado, reforçando que, apesar da redução nacional, a violência contra pessoas trans segue sendo uma realidade próxima, especialmente para as mais jovens.

Fonte: Gazeta Digital, créditos da imagem: Reprodução/sinpsi-sp


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