Fonte: Gazeta Digital, créditos da imagem: Michel Alvim
Corredores que por décadas foram apenas ruínas, labirintos escuros, ocupados por lixo, mato, infiltrações e morcegos, simplesmente esquecidos. Hoje, estão tomados pela tinta fresca e clara, pelas luzes, pelo barulho dos equipamentos que são instalados e dos passos rápidos dos trabalhadores que dão os últimos retoques. O prédio, que por décadas foi o retrato do descaso dentro do Centro Político Administrativo, da ineficiência da gestão pública, uma promessa de 10 homens que assumiram o posto mais alto do Poder Executivo, agora tem data certa para abrir as portas e prestar um serviço muito mais amplo que o prometido em 1984, quando nem o Sistema Único de Saúde (SUS) existia. O Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso, em Cuiabá, sai do papel e passará a fazer parte da vida da população que depende do SUS e que sonha com um tratamento digno, com atendimentos 100% gratuitos. Uma promessa do atual governo, responsável pela retomada das obras em 2020, para ser concretizada a partir do dia 19 de dezembro deste ano, data confirmada da inauguração. E, definitivamente, a partir do dia 19 de janeiro de 2026, quando a primeira etapa dos serviços – cirurgia geral pediátrica, cirurgia ortopédica pediátrica, cirurgia urológica, cirurgia oncológica e hemodinâmica (cateterismo cardíaco e angioplastia) – começa a ser realizada na unidade.
No espaço Garden – um espaço de convivência -, o secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo, segurando uma foto feita no mesmo local há quase 10 anos, no dia 21 de janeiro de 2016, que demonstra o tamanho da transformação, afirma: Não tem como dizer que não tem a mão de Deus aqui. Respira fundo e conclui: milhões de pessoas poderiam ter sido atendidas e salvas neste hospital.
Com a adrenalina lá em cima, como o secretário mesmo descreve, por todos os setores há gente trabalhando. Últimos ajustes em portas, tetos, equipamentos instalados e outros ainda que precisam ser retirados das caixas. A decoração que começa a chegar, quadros que são esperados, as flores e folhagens que já começam a ocupar seus espaços. O contraste da delicadeza da ala pediátrica com a magnitude de toda a obra. Cada detalhe, desde a ampliação da obra, o novo projeto, às aquisições de móveis e equipamentos, à decoração e toques finais, tudo feito pelas equipes da própria secretaria de Estado de Saúde. Vai ser um dia de muita emoção para todos nós, afirma Gilberto, lembrando que estes dias que antecedem a inauguração serão de trabalhos ininterruptos.
Ele, que calcula já ter ido mais de duas mil vezes ao prédio, com visitas diárias, às vezes até mais de uma vez ao dia, afirma que o hospital é um misto de sentimentos. O resgate de um sonho da população, que ficou abandonado por mais de três décadas, mas também a concretização de um juramento que ele mesmo fez quando, acometido pela covid-19, foi transferido para o Hospital Albert Einsten, em São Paulo, e chegou a imaginar que não voltaria para casa.
Não é só a entrega de um prédio, de um hospital, mas é de um conjunto de decisões tomadas no governo, que tem, no meu caso pessoal, uma promessa contida dentro dele. Quando eu fui acometido pela pandemia, pela covid, acabei sendo transferido para São Paulo. Eu praticamente não imaginava que eu voltaria para casa e eu fiz um juramento: que eu ia dar a minha vida não só na construção do hospital, mas para que a gente pudesse dar a possibilidade ao cidadão de Mato Grosso de ter o mesmo atendimento que eu tive, se Deus me concedesse a graça de eu sair com vida. E, graças a Deus, eu estou conseguindo fazer as duas coisas: entregar o melhor hospital e o melhor hospital administrado pelo Einstein (Hospital Albert Einstein), que é onde eu fiz o juramento.
Figueiredo enfatiza que não se trata do mesmo hospital de 41 anos atrás, que tinha apenas 9 mil metros quadrados. Trata-se de um hospital edificado no mesmo local daquele marcado por tantos descasos, no mesmo lugar que foi abandonado, mas com um projeto totalmente novo e 32 mil metros quadrados e com capacidade para ser ampliado.
Dentro de todos os investimentos na saúde, com cinco hospitais regionais sendo construídos e o Hospital Universitário Júlio Müller, que serão entregues até o final da gestão, e mais um que será lançado e construído em Pontes e Lacerda, o secretário de saúde é enfático ao dizer que o Hospital Central será o carro-chefe do Estado e o melhor hospital público do país. Vai tratar da alta complexidade, com tecnologia de ponta e cirurgia robótica.
Não será um hospital de portas-abertas, pois todos os pacientes serão regulados. Então, não é o paciente que escolhe o que ele quer fazer aqui. É aquilo que estiver planejado para ser feito aqui, até porque esse hospital não consegue absorver sozinho toda a demanda, por exemplo, cirúrgica do estado de Mato Grosso. Mas será aqui, nesse hospital que com certeza vai ter uma alta complexidade, o que tem de melhor em tecnologia para que a gente não faça mais nenhum cidadão precisar ir para fora do estado para ser atendido.
Um projeto concreto e uma pandemia no meio
A retomada das obras do Hospital Central foi anunciada no final de dezembro de 2019 pelo governador Mauro Mendes (União). As obras iniciaram em janeiro de 2020, com previsão de serem entregues em setembro de 2022. Mas, logo no início, surgiu o improvável, o inimaginável, a pandemia da covid-19, que paralisou o mundo e empurrou projetos essenciais para anos de atraso. E não foi diferente com o Hospital Central.
É justamente a pandemia que Gilberto Figueiredo destaca como o maior obstáculo. Durante a entrevista, o secretário, inclusive, teve que dar pausas por causa da tosse intensa, reflexo da quarta pneumonia que tem após a covid. Você tem um plano que você pensa, elabora e começa a colocar em operação. Nós assumimos em 2019 um governo que estava devendo todo mundo e o nosso primeiro ano foi administrar a dívida e pagar a conta e planejar. Quando nós partimos para começar a operacionalizar o nosso plano, veio a pandemia e tirou dois anos preciosos de nós, porque o nosso foco, a prioridade foi logicamente cuidar da população. Então, isso atrapalhou todas as obras.
Fora isso, Gilberto afirma que não faltou determinação por parte do governo, não faltou recurso para que o projeto planejado fosse executado. A área da saúde foi tratada no governo do Mauro com prioridade. Tudo aquilo que nós planejamos, nós já executamos ou estamos em fase final de execução e é lógico que finaliza no ano que vem, quando a gente entrega todos os hospitais.
Ainda sobre a pandemia, o secretário admite que teve dias que não sabiam mais o que fazer para enfrentar o desafio. Então, é uma realização de um sonho, além de um desafio mensurado de ter tido energia para suportar. Eu sou o secretário mais duradouro, mais longevo dos últimos 20 anos da saúde do estado de Mato Grosso. E, logicamente, que teve momentos que a gente perdeu a força, a gente quase jogou a toalha, mas tem uma força Divina aí que não deixou isso acontecer.
Investimentos
Todos os dias é preciso refazer a conta, afirma o secretário de Estado de Saúde e todos os investimentos são do governo do Estado.
Em infraestrutura, a estimativa final é na ordem de R$ 330 milhões que, somados a cerca de R$ 200 milhões em equipamentos, chegará a um total de aproximadamente R$ 550 milhões de investimento.
Serão quatro etapas até o funcionamento total. A primeira começa no dia 19 de janeiro e as outras serão implementadas a cada 30 dias. Quando o hospital estiver na sua capacidade total, serão aproximadamente 1.600 profissionais atuando, todos contratados pelo Albert Einsten.
E, neste momento full, o secretário estima um custeio aproximado de R$ 30 milhões por mês. Contanto com os demais hospitais reformados e os que serão inaugurados, são bilhões de reais anualmente falando. Dentro deste contexto, ao ser questionado se o Hospital Central será administrável pelos próximos governos, Gilberto Figueiredo é enfático em afirmar que se o próximo governo não priorizar a saúde, pode haver problemas.
Toda gestão é opção estratégica. O governador Mauro Mendes decidiu na campanha fazer a saúde funcionar e sabia que para fazer isso funcionar teria que investir. Ao final da gestão do governador, nós vamos mais do que quintuplicar a despesa na área da saúde. Então, logicamente, se o governo que vier a suceder Mauro Mendes não tratar a saúde com prioridade, pode ocorrer isso (problemas na administração do hospital).
Reforça que o faturamento de um hospital público em um ano não dá para cobrir mais do que dois meses. Então, eu espero que quem venha a suceder tenha competência, pelo menos, para manter em funcionamento o que nós vamos deixar pronto. Porque nós não vamos apenas deixar novos hospitais prontos para funcionar, nós vamos deixar os hospitais antigos modernizados, porque estavam sucateados e abandonados. E eu espero estar vivo, inclusive, para cobrar, seja onde eu estiver, que o governo continue tratando a saúde com prioridade.
4 décadas de espera e sofrimento
A conclusão do Hospital Central é assunto de mais de 4 décadas, principalmente antes da construção e inauguração do Hospital Municipal de Cuiabá (HMC). As denúncias feitas no antigo Pronto-Socorro da Capital eram constantes e a cobrança pelo Hospital Central permanente. Falta de materiais básicos, de medicamentos e de profissionais se uniam ao cenário quase de guerra, com os corredores superlotados. Em cada vistoria, uma constatação absurda, como de pacientes com tuberculose no meio de vários outros.
Constatei uma situação absurda. Onde houvesse um cantinho livre nos corredores, havia um paciente. Não dava nem pra caminhar, relatou a então presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso, Evelyn Bidigaray, após uma vistoria na unidade em dezembro de 2017.
Em 2015, a unidade realizava cerca de 1,1 mil internações por mês e a proposta de interdição foi ventilada várias vezes. Em julho daquele ano, o então presidente do Conselho Regional de Medicina, Gabriel Felsk, afirmou: A interdição não seria um remédio, seria realmente um veneno ainda pior. Afinal, não haveria outro local para tantos pacientes.
Médico da família e pós-graduado em psiquiatra, Werley Peres foi secretário de Saúde de Cuiabá em 2014, num dos momentos em que a capital enfrentava uma das situações mais críticas da saúde. Ele afirma que uma das grandes expectativas era de que o Hospital Central desafogasse a saúde de Cuiabá.
Naquela época, vivíamos um déficit muito grande de leitos, em especial na alta complexidade e se tivesse o Hospital Central cuidando de alta complexidade, não teria, por exemplo, problema na ortopedia. 60% das pessoas que ficavam no corredor do pronto-socorro eram do interior. Muitos dos pacientes viajavam até 1.300 quilômetros para serem operados e, infelizmente, ficavam naquele corredor, relembra.
Peres avalia que, se há 10 anos tivessem inaugurado o Hospital Central, teria uma solução maior e diminuiria a fila do SUS da alta complexidade. Esses leitos, há 10 anos, teriam um resultado até melhor do que hoje. Mas, com a inauguração do Hospital Central, sem dúvida vai desafogar muito o sistema e isso vai ter um resultado gigante.
Oferta de leitos de UTI está entre grandes avanços
Titular da 7ª Promotoria de Justiça Cível da Capital – Defesa da Cidadania (Saúde), o promotor de Justiça Milton Mattos da Silveira Neto afirma que além de atender a alta complexidade, o Hospital Central será essencial com a oferta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A demanda por leitos de UTI é um dos principais assuntos da judicialização da saúde e a expectativa é que os 60 leitos de UTI do novo hospital possam melhorar a oferta.
O hospital será muito importante para a Rede SUS de Mato Grosso, porque vai ser referência para a realização de cirurgias de alta complexidade, de várias especialidades. Então, as pessoas que precisam de cirurgias cardíacas e de várias especialidades vão ter um lugar com um corpo clínico de primeira, toda a estrutura. Também serão 60 leitos de UTI, e somados às UTIs que já existem na rede, vai melhorar também bastante a oferta. Sem falar que vai mudar o patamar do atendimento, avaliou Milton Mattos.



