"> Para ajudar, ações falam mais que palavras – CanalMT
Manoel Vicente de Barro

Para ajudar, ações falam mais que palavras

O bom exemplo é poderoso e irresistível. Argumentar, escolher palavras, insistir nem sempre é suficiente para convencer. Até onde você está disposto a ir por quem você ama?

A dúvida mais recorrente na saúde mental não é a respeito de medicações ou diagnósticos, o que pais, mães e filhos querem saber é como efetivamente ajudar seu familiar em sofrimento.

Se convencer de um diagnóstico é difícil, de um tratamento, mais ainda. Por isso o abandono da terapia é a regra e as recaídas que se seguem, inevitáveis.

A angústia de tantos familiares é justamente como persuadir essa pessoa a seguir orientações, marcar a consulta e usar um medicamento.

Me procuram na expectativa de um manual, dicas de quais palavras usar. Se essa receita estivesse pronta, tenha certeza que eu compartilharia. Ela simplesmente não existe.

Minha resposta frustra expectativas, mas pode ser um exercício de empatia instantânea. Se você quer que seu ente querido faça o tratamento, esteja você disposto a fazer o seu.

Eu? Eu não! Quem tem problema não sou eu.

É fácil entender a negação quando o paciente é você.

Todas as condições em saúde mental sofrem alguma influência genética, se sua filha tem depressão recorrente, transtorno bipolar ou síndrome do pânico, é não só possível, como provável que você também tenha tido alguma manifestação dessas condições ao longo da vida.

O fato de ela estar mais grave e precisando de maior atenção no momento, não te torna imune a suas predisposições.

O momento mais catártico de um primeiro atendimento é fazer a lista de familiares biológicos que tiveram ou podem ter tido algum diagnóstico em saúde mental.

Informações vão surgindo e conforme a lista de familiares irritados, melancólicos, explosivos, com problemas com álcool ou crises de nervos vai se preenchendo é enxergado o contexto.

Muitos nunca foram diagnosticados, afinal isso é privilégio de quem se colocou na situação de paciente, se a pessoa nunca pisou em um consultório, não significa que ela não precisava ter pisado.

A situação fica contextualizada na história da família.

Existe um enredo transgeracional em todo adoecimento. Guiado por genes, mas tantas vezes reforçado pela herança não biológica de hábitos e valores.

Quando a pessoa se senta na frente de um psiquiatra ou psicólogo, a sensação de ser a ovelha negra, a exceção, o problemático, a louca emerge naturalmente, e o abandono do tratamento é uma negação desses rótulos. Não existe argumentação forte o suficiente se a família também mantém esse estigma.

O familiar que se dispõe a ser atendido e avaliado por um profissional da saúde mental e adota hábitos saudáveis está naturalizando o tratamento e diminuindo a carga moral agregada. Deixa tudo mais leve.

Aquele que nega qualquer abordagem, está implicitamente declarando que o problema existe exclusivamente no outro e repete, ele próprio, o comportamento de negar ajuda. O fardo pesa quando apenas um carrega.

Admitir a tendência familiar não é aceitar uma condenação, é autoconhecimento, uma dose de realismo. Reconhecer predisposições em saúde permite prevenir adoecimentos futuros.

Para mudar o comportamento do outro, mude o seu primeiro. Se entregue com ações e haja exatamente da forma como gostaria que essa pessoa agisse.

Você vai ganhar pelo exemplo e não pelas palavras.

Manoel Vicente de Barros é psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de depressão e ansiedade.


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