"> O recado da eleição chilena – CanalMT
Claudio Reyes / AFP

O recado da eleição chilena

G1

A vitória do empresário Sebastián Piñera no Chile traz lições de dois tipos ao Brasil. Primeiro, na dinâmica política. Segundo, na relevância da economia.

No primeiro turno, Piñera obtivera 36,6% dos votos, um desempenho aquém do previsto nas pesquisas. Esperava-se um desempate apertado contra o esquerdista Alejandro Guiller. Temia-se a polarização do debate, inevitável depois que a candidata de extrema-esquerda, Beatriz Sánchez, obtivera 20%.

Guiller adotou um tom radical para garantir o voto dos eleitores de Sánchez. Uma guerra suja tomou conta das redes sociais. Mas a estratégia se voltou contra ele. Piñera moderou seu discurso e declarou apoio a políticas sociais do atual governo, de Michelle Bachelet. Resultado: venceu com 54%, a melhor marca já obtida pela direita chilena desde a redemocratização.

Eis o recado para aqueles que apostam na polarização entre os extremos como meio para chegar ao poder no Brasil em 2018: uma eleição em dois turnos necessariamente favorece a moderação.

Foi o que aconteceu na França, onde o liberal centrista Emmanuel Macron derrotou no início do ano o nacionalismo populista de Marine Le Pen, com dois terços dos votos, mesmo depois que a Frente Nacional obtivera a maior votação de sua história no primeiro turno.

O discurso radical, tanto à direita quanto à esquerda, parece encontrar um limite natural no eleitorado. Mesmo em momentos de crise política, com a guerrilha correndo solta pelas redes sociais, pode passar dos 20%, mas dificilmente vai muito além disso. No segundo turno, a moderação acaba prevalecendo.

Foi assim na França e no Chile. Não há motivo para crer que no Brasl será diferente. Por mais que partidários dos pré-candidatos Luiz Inácio Lula da SIlva e Jair Bolsonaro se estapeiem nas redes sociais, para algum deles vencer, precisará conquistar o voto moderado, hoje inclinado a nomes como Geraldo Alckmin ou Henrique Meirelles.

O segundo recado do Chile diz respeito à importância da economia. Quando governou o país, entre 2010 e 2014, Piñera promoveu um período de crescimento vigoroso. Sua sucessora, Bachelet, não conseguiu manter o mesmo ritmo e se perdeu em promessas sociais que não conseguiu cumprir (entre elas, o acesso gratuito às universidades).

Na campanha do primeiro turno, Piñera foi criticado por ter adotado um discurso mais dócil em relação à ditadura Pinochet, na tentativa de isolar o candidato de extrema-direita apoiado por militares, José Antonio Kast. No segundo turno, prevaleceu a visão econômica liberal.

A população preferiu apostar outra vez na capacidade de gestão comprovada de Piñera, um empresário bilionário, formado em economia por Harvard, que promete criar 600 mil empregos e resgatar o crescimento chileno do patamar sofrível deste ano – 1,7%, para um país acostumado a médias na casa dos 5%.

Mais uma vez, é possível traçar um paralelo com o Brasil. Vários temas disputam a primazia na mente dos eleitores para as eleições do ano que vem: corrupção, violência, aposentadorias, saúde e educação. Mas o principal desvio de rota nos últimos anos foi econômico. Sofremos consequências da gestão desastrosa da Era Dilma e temos dificuldade para aprovar reformas capazes de recuperar o crescimento.

O governo do presidente Michel Temer deteve a alta no desemprego e deverá fechar o ano com uma alta superior a 1% no PIB. A inflação caiu e os mercados vivem um momento positivo. Não há dúvida de que a corrupção continua a ser a maior preocupação da população. Mas, no Brasil, ela nunca foi um tema decisivo na urna.

Há, ao contrário, um relação inequívoca entre a situação econômica e o sucesso de candidatos governistas (ou associados à plataforma do governo). O que falta, aqui, é a escolha de um nome para representar esse campo. A fragmentação atual favorece a polarização entre extremos.

O debate renhido nas redes sociais poderá transmitir em 2018 a sensação de uma disputa virulenta entre radicais. Mas a união em torno de um candidato moderado, apoiado num projeto econômico consistente, distante dos delírios estatistas, tem mais chance de vencer.


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