Mais um capítulo dessa novelinha interminável e sem graça estrelada pelos Ministérios Públicos e Secretaria de Cidades passou na semana passada.
O trem cuiabano parece que chegou, definitivamente, àquela situação da piada: tá alto pra carpir, baixo pra roçar e verde pra queimar.
Ou seja: não dá pra abandonar a obra por conta da grana que foi ali enterrada; é impossível utilizar embora 70% já esteja pronta; e não há consenso entre as partes envolvidas para terminar a empreitada.
Creio que o formalismo e a supervalorização das ações protocolares, juntamente com a falta de vontade e interesse, sejam os principais inimigos da retomada dos VLT.
A população, se tivesse voz, por certo, apelaria para o bom senso de todos (virtude que todos nós julgamos ter de sobra), pedindo esforço para fechar um acordo em torno do projeto.
Pelo que a mídia noticia, parece haver uma tendência de cada um dos lados de empurrar a culpa para o outro.
O Estado sugere que os MPs só criam obstáculos sem apresentar soluções, e estes garantem que estão somente defendendo os interesses do contribuinte.
Ninguém nega aos MPs a legitimidade ou o dever de defender o bem comum. Entretanto, este zelo pode manifestar-se de muitas formas.
Uma delas seria esquecer um pouco protocolos, normas, prazos, burocracias etc. em favor da busca rápida de soluções.
Todos precisam abandonar as contendas, esquecer quem são os culpados pelos transtornos e tentar um pacto.
Passou da hora de abandonarmos essa rotina: o Executivo e as empreiteiras chegam a um acordo que, submetido aos MPs, entra na fila de análise.
Semanas ou meses depois, volta ao Governo com parecer negativo. Este, depois de diversas análises e desculpas, diz que resolveu todas as pendências e reencaminha o documento, que é, de novo, contestado.
E assim, indo e voltando, por conta de detalhes e minudências, as duvidosas economias buscadas já foram superadas pelas despesas reais que são pagas todo mês para manter o VLT parado.
Em vez de rebater oficialmente as inconsistências apontadas na semana passada pelos MPs, proponho uma reunião dos responsáveis e seus assistentes em espaço neutro, longe dos ambientes formais e austeros gabinetes.
Todos deixariam em casa as gravatas e os ternos, junto com eles ficariam também a arrogância e a vaidade.
Findo o encontro, se decidirem pela continuidade da obra, bastava redigir o texto, que assinado pelos presentes seria formalizado no próximo dia útil.
Alguns dirão que na administração pública as coisas não funcionam com essa simplicidade, mas são os homens determinam as “coisas”, não o contrário.
Se decretarem o fim dos protocolos e formalismos, poderão presentear o povo com a ressurreição desse natimorto VLT, ou, no limite, enterrar de vez o defunto, iniciando o processo do luto.
Nesta última hipótese, o povo vai lamentar o fim do sonho e a fortuna jogada no lixo, deixando o governador e o secretário agarrados com jacaré que abraçaram.
RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor em Cuiabá.