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Olímpicos na arte popular

Levados pelo clima dos jogos olímpicos, corremos o risco de acreditar no hiperbólico slogan da Globo “Somos todos olímpicos”. A propósito, em momentos de competições das quais nosso país participa, como anfitrião ou visitante, a mania de um gigantismo nacional tem sido imposição recorrente na mídia.

Contudo, em nada crescemos por conta de uma empolgação quase sempre sem lastro. A quem duvidar dos exageros, diante de um telejornal, em tempos normais, basta contar suas notícias positivas.

Faça o mesmo com as negativas que apresentam brasileiros desesperados por conta da calamidade da saúde pública, cada vez mais distante do aceitável. E a violência urbana? Seus números superam países em guerra. Infelizmente, a tranquilidade do Olimpo não é aqui. Manuel Bandeira – contrariando o nacionalismo do poeta Gonçalves Dias – entendeu bem isso; assim, determinou-se a ir “embora pra Pasárgada”.

Mesmo do alto, os braços abertos do nosso Cristo Redentor são curtos demais para uma terra tão cheia de contrastes, como já mostrara Roger Bastides. O gigantismo que não se sustenta nunca foi tão bem traduzido como em quase tudo o que envolveu a realização da Copa/2014.

De grandioso mesmo só os superfaturamentos de quase todas as obras, incluindo as não-concluídas. Tais exageros em nada são positivos a ninguém, muito menos ao Estado que precisa dar dignidade de existência a todos. Mas, em meio a exageros, não é um deles dizer que a cerimônia de abertura da Olimpíada/Rio foi temática e esteticamente bem resolvida pelo grupo de artistas – cineastas, principalmente – que idealizou e deu vida ao tema; e tudo com muita tecnologia.

Na medida, um show de bom gosto. Só para lembrar, a Grécia antiga, berço da primeira maratona, coroava com louros não só os vencedores esportivos; coroava também seus artistas. Sem contar o cultivo das reflexões filosóficas que remontam tempos pré-socráticos.

Heráclito de Éfeso, observador por excelência do movimento das águas de um rio, que o diga. Aqui, se não posso literalmente coroar os artistas que abrilhantaram a abertura, faço destaques do que vi pela TV. No limite, tudo contemplado: nosso dolorido percurso histórico e a abrangente luta por igualdade de direitos.

Nesse sentindo, a pluralidade de nossos ritmos foi coerente. O mundo ainda viu um recado: cuidar do planeta. Bem antes, surpreendentemente, acompanhado por um conjunto de cordas, a afinada voz de Paulinho da Viola (en)cantou o Hino Nacional. Marcos Valle ofereceu-nos o “Samba de verão”. Lembrar da “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, na voz de Daniel Jobim, foi emocionante.

Como bonito foi ver Gisele Bündchen desfilar sobre projeções que formavam obras de Niemeyer, sempre inspirado pelas linhas curvas. Num caldeirão musical, o que falar de Elza Soares interpretando “Canto de Ossanha”, de Baden e Vinicius? Do “Rap da Felicidade”, hino das favelas, apresentado por Ludmilla?

O quadro foi fechado com as rappers MC Soffia, de apenas 12 anos, e Karol Conka, que apresentaram “Toquem os Tambores”, com versos sobre empoderamento feminino e contra o racismo. Igualmente maravilhoso foi ver Wilson das Neves e o garotinho Thawan sambando numa bela união de gerações longínquas.

Caetano, Gil, e acompanhados por Anitta, Ben Jor, as escolas de sambas… Tudo valeu a pena. No desfecho, “A flor e a náusea” de Drummond – declamado por Fernanda Montenegro e Judi Dench – expôs um paradoxo de nosso tempo. Tudo muito digno de louros e medalha de ouro.

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é professor de Literatura na UFMT e dr. em Jornalismo/USP.


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