Em meio a boatos, especulações e notícias desencontradas, tem-se como bastante provável que a presidente Dilma Rousseff, tão logo seja votada a admissibilidade do impeachment pelo Senado, passe a viajar pelo mundo com o propósito de dizer que está sendo ‘vítima de um golpe’.
Os países da América Latina seriam os primeiros a serem visitados, e a dita viagem terminaria ou na França, ou na Itália ou na Espanha – onde a petista encontraria com representantes de partidos de esquerda.
Esta viagem não parece ser necessária. A presidente deveria isto sim, voltar-se a atenção ao processo em curso e preocupar com a sua defesa no Senado.
Uma defesa que deveria ser muitíssimo diferente do até aqui apresentado por ela, e por quem se coloca na condição de seu advogado.
Isto porque governante algum, que tenha diante de si um impeachment, pode continuar acusando de ‘golpista’ quem acolheu o tal pedido e as pessoas que advogam a cassação de seu mandato, nem chamar de ‘golpe’ um processo todo amarrado em denúncias de crimes de responsabilidade fiscal.
Esta é uma tática equivocada, assim como também é completamente equivocada, e porque não dizer desesperadora, a ideia de apresentar uma proposta antecipando as eleições presidenciais, ‘abrindo mão de dois anos de mandato’, Isto pode até ser legal, ainda que legítimo se saiba que o é.
Mas grande parte da população irá considerar tal posicionamento como de quem se encontra em uma situação de completo desespero. E não deixa de ter razão em pensar desse modo.
E, por outro lado, a fazer tudo para impedir que o vice-presidente não venha a assumir o comando da administração pública federal. Isto é bastante grave.
A situação vivida hoje pelo país, claro, é bastante diferente da vivida pela Argentina, em 1989. Ano em que o presidente Raul Alfonsín renunciou há cinco meses antes do término do seu mandato, antecipando assim a posse de Carlos Menen, que já havia sido eleito.
A descontrolada crise econômica levou Alfonsín a tomar essa iniciativa, em comum acordo com o próprio Menen, porém não havia contra ele um pedido de impeachment, embora a imensa maioria da população se posicionasse contra a sua administração.
Por aqui, existe igualmente uma forte crise econômica, com parte significativa da população brasileira se posicionando contra a permanência da presidente.
Mas, no país, há também um pedido de impeachment todo sustentado naquilo que se convencionou chamar de pedalada fiscal, com o fim de maquiar as contas públicas e mediante ilegais empréstimos que se configuraram na prática, sem quaisquer aprovações do Congresso Nacional; assim como a decretos que permitiram ao governo gastar mais, sem que os congressistas os autorizassem.
A situação da petista-presidente é comprometedora. Inexiste quase saída a seu favor. O que, por si só, descarta a pecha de injustiçada. Nada, por outro lado, porém, justifica a antecipação das eleições.
Nem mesmo pelo fato de que a presidente não possui dados que comprovem sua inocência da acusação de crime de responsabilidade.
É isto.
LOUREMBERGUE ALVES é professor universitário e analista político em Cuiabá.
lou.alves@uol.com.br